sábado, 27 de abril de 2013

Adversidades - Lualves

(Do extinto "Casa da Infância/Spaceblog")

Ainda que a chuva demore
que à noite a vela venha curta
ou a palavra esguia teime em fugir do verso

Ainda que o beijo no rosto seja o de Judas
que o conto não tenha a frase perfeita
ou o descuido tenha desafinado o final

Ainda que demore
que respingue
que desatine
que o que era Sol
há pouco tenha se apagado
e o que era doce
de amargo se vestiu

Ainda que não
Ainda que nada
Ainda que sujo

Ainda que o corpo sangre
E o espasmo seja o espanto
E o canto desabafo

(bem me lembro das noites frias regadas a conhaque)

Ainda que a memória esteja falha
Que o passado condene
E o julgamento injusto
E que a sentença seja

a solidão...

Ainda que não
Ainda que nada
Ainda que impuro

Eu juro

Ainda que venha a morte

E tudo se transforme em silêncio...

em silêncio...

silêncio.

Haverá de manter-se esse desejo incessante
Um sonho ( que sem ele o homem é carvão)

Um último gole de poesia
E esperança

Cujo gosto (que é voz e ecoa)

Permanecerá vivo de alguma forma
Além da vida
Além da morte
Além de mim
 

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