Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Língua de Nhem




Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.
E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também
a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,
e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,
ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
  • Cecília Meirelles
  • (Ou isto ou aquilo - Nova Fronteira)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

As coisas que a gente fala


 

Às vezes,  uma orientação pode ser tratada com poesia... antes que aconteçam situações desagradáveis, podemos antever e conversar com as crianças de forma lúdica.
Abaixo segue a incrível lição de Ruth Rocha.
 



AS COISAS QUE A GENTE FALA
As coisas que a gente fala
saem da boca da gente
e vão voando, voando,
correndo sempre pra frente.
Entrando pelos ouvidos
de quem estiver presente.
Quando a pessoa presente
É pessoa distraída
Não presta muita atenção.
Então as palavras entram
E saem pelo outro lado
Sem fazer complicação.

Mas ás vezes as palavras
Vão entrando nas cabeças,
Vão dando voltas e voltas,
Fazendo reviravoltas
E vão dando piruetas.
Quando saem pela boca
Saem todas enfeitadas.
Engraçadas, diferentes,
Com palavras penduradas.

Mas depende das pessoas
Que repetem as palavras.
Algumas enfeitam pouco.
Algumas enfeitam muito.
Algumas enfeitam tanto,
Que as palavras - que
Engraçado!
- nem parece as palavras
que entraram pelo outro
lado.

E depois que elas se espalham,
Por mais que a gente procure,
Por mais que a gente recolha,
Sempre fica uma palavra,
Voando como uma folha,
Caindo pelos quintais,
Pousando pelos telhados,
Entrando pelas janelas,
Pendurada nos beirais.

Por isso, quando falamos,
Temos de tomar cuidado.
Que as coisas que a gente fala
Vão voando, vão voando,
E ficam por todo lado.
E até mesmo modificam
O que era nosso recado.

Eu vou contar pra vocês
O que foi que aconteceu,
No dia em que a Gabriela
Quebrou o vaso da mãe dela
E acusou o Filisteu.

- Quem foi que quebrou meu vaso?
Meu vaso de ouro e laquê,
Que eu conquistei no concurso,
No concurso de crochê?
- Quem foi que quebrou seu vaso?
- a Gabriela respondeu
- quem quebrou seu vaso foi...
o vizinho, o Filisteu.

Pronto! Lá vão as palavras!
Vão voando, vão voando...
Entrando pelos ouvidos
De quem estiver passando.
Então entram pelo ouvido
De dona Felicidade:
- o Filisteu? Que bandido!
que irresponsabilidade!
As palavras continuam
A voar pela cidade.
Vão entrando nos ouvidos
De gente de toda idade.
E aquilo que era mentira
Até parece verdade...

Seu Golias, que é vizinho
De dona Felicidade,,
E que é o pai do Filisteu,
Ao ouvir que o filho seu
Cometeu barbaridade,
Fica danado da vida,
Invente logo um castigo,
Sem tamanho, sem medida!
Não tem mais festa!
Não tem mais coca-cola!
Não tem TV!
Não tem jogo de bola!
Trote no telefone?
Nem mais pensar!
Isqueite? Milquicheique??
Vão acabar!

Filisteu, que já sabia
Do que tinha acontecido,
Ficou muito chateado!
Ficou muito aborrecido!
E correu logo pro lado,
Pra casa de Gabriela:
- Que papelão você fez!
Me deixou em mal estado,
Com essa mentira louca
Correndo por todo lado.
Você tem que dar um jeito!
Recolher essa mentira
Que em deixa atrapalhado!

Gabriela era levada,

Mas sabia compreender
As coisas que a gente pode
E as que não pode fazer;
E a confusão que ela armou,
Saiu para resolver.

Gabriela foi andando.
E as mentiras que ela achava
Na sacola ia guardando.
Mas cada vez mais mentiras
O vento ia carregando...
Gabriela encheu sacola,
Bolsa de fecho de mola,
Mala, malinha, maleta.

E quanto mais ia enchendo,
Mais mentiras ia vendo,
Voando, entrando nas casas,
Como se tivessem asas,
Como se fossem - que coisa!
- um milhão de borboletas!

Gabriela então chegou
No começo de uma praça.
E quando olhou para cima
Não achou a menor graça!
Percebeu - calamidade!
- que a mentira que ela disse
cobria toda a cidade!

Gabriela era levada,
Era esperta, era ladina,
Mas, no fundo, Gabriela
Ainda era uma menina.
Quando viu a trapalhada
Que ela conseguiu fazer,
Foi ficando apavorada,
Sentou-se numa calçada,
Botou a boca no mundo,
Num desespero profundo...

Todo mundo em volta dela
Perguntava o que é que havia.
Por que chora Gabriela?
Por que toda esta agonia?
Gabriela olhou pro céu
E renovou a aflição.
E gritou com toda força
Que tinha no seu pulmão:
- Foi mentira!
- Foi mentira!

Com as palavras da menina
Uma nuvem se formou,
Lá no alto, muito escura,
Que logo se desmanchou.
Caiu em forma de chuva
E as mentiras lavou.

Mas mesmo depois do caso
Que eu acabei de contar,
Até hoje Gabriela
Vive sempre a procurar.
De vez em quando ela encontra
Um pedaço de mentira.
Então recolhe depressa,
Antes dela se espalhar.
Porque é como eu lhes dizia.
As coisas que a gente fala
Saem da boca da gente
E vão voando, voando,
Correndo sempre pra frente.

Sejam palavras bonitas
Ou sejam palavras feias;
Sejam mentira ou verdade
Ou sejam verdades meias;
São sempre muito importantes
As coisas que a gente fala.
Aliás, também têm força
As coisas que a gente cala.
Ás vezes, importam mais
Que as coisas que a gente fez...
"Mas isso é uma outra história
que fica pra uma outra vez..."
 
 
 

Extraído de:



Imagem:
http://zeliacunhapintandopoesia.blogspot.com.br/2011/09/as-coisas-que-gente-fala.html

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Dever de casa

Quatro e quatro oito

oito e oito dezesseis

Repitam! Diz o professor

Dois e dois quatro

Quatro e quatro oito

Oito e oito dezesseis

Mais eis o pássaro-lira

que passa pelo céu

o menino vê

o menino ouve

o menino chama

Venha me salvar

venha brincar comigo

seu pássaro!

Então o pássaro desce

e brinca com o menino

Dois e dois quatro...

Repitam! diz o professor

E o menino brinca

e o pássaro brinca com ele...

Quatro e quatro oito

Oito e oito dezesseis

Dezesseis e dezesseis fazem quanto?

Eles não fazem nada dezesseis e dezesseis

De todo modo

trinta e dois é que não fazem

e eles se vão

E a criança escondeu o pássaro

em sua carteira

e todas as crianças

ouvem a sua canção

e todas as crianças

ouvem essa musica

e oito e oito por sua vez já se vão

e quatro e quatro e dois e dois

por sua vez se mandam dali

e um e um não fazem nem um nem dois

um e um se vão também.

E o pássaro-lira volteia

E a criança canta

E o professor grita:

Quando acabará de fazer papel de palhaço?

Mas todas as crianças

ouvem a música

E as paredes da sala

Desabam tranquilamente

E os vidros voltam a ser areia

A tinta volta a ser água

As carteiras voltam a ser árvores

O giz volta a ser falésia
 
A pena de escrever volta a ser pássaro”

 
(Prévert, Jacques. Dia de folga)

 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O direito da criança - Ruth Rocha


Ruth Rocha é fabulosa.



Sempre admirei a forma como suas palavras bailam e expressam de forma tão precisa e poética questões e situações que fazem parte do mundo infantil.  É o caso deste poema. Fala a respeito de questões legais, educacionais, de lazer, humanos, que deveriam ser minimamente respeitados.



Também pode ser interessante conhecer o que diz a Declaração Universal dos Direitos das Crianças e o Estatuto da Criança e do Adolescente. A primeira diz respeito aos princípios estabelecidos em documento aprovado na Assembleia Geral da ONU, em 1959,  que orienta todos os países a respeitarem as necessidades básicas das crianças e o segundo, a lei nº 8069, dispõe sobre as condições para que as crianças e adolescentes do Brasil tenham uma vida mais digna.


Documentos que merecem estudo e reflexão e, mais ainda, que se façam vale na prática. Neste momento, a leitura deste pelo poema, dá a dimensão de um quadro que deveria envolver todas as crianças indistintamente.



Toda criança do mundo

Deve ser bem protegida
Contra os rigores do tempo
Contra os rigores da vida.


Criança tem que ter nome
Criança tem que ter lar
Ter saúde e não ter fome
Ter segurança e estudar.


Não é questão de querer

Nem questão de concordar
Os direitos das crianças
Todos tem de respeitar.
Direito de perguntar…
Ter alguém pra responder.
A criança tem direito
De querer tudo saber.

A criança tem direito
Até de ser diferente.
E tem que ser bem aceita
Seja sadia ou doente.
Tem direito à atenção
Direito de não ter medos
Direito a livros e a pão
Direito de ter brinquedos.
Mas a criança também
Tem o direito de sorrir.
Correr na beira do mar,
Ter lápis de colorir…
Ver uma estrela cadente,
Filme que tem robô,
Ganhar um lindo presente,
Ouvir histórias do avô.
Descer no escorregador,
Fazer bolha de sabão,
Sorvete, se faz calor,
Brincar de adivinhação.
Morango com chantilly,
Ver mágico de cartola,
O canto do bem-te-vi,
Bola, bola, bola bola!
Lamber fundo de panela
Ser tratada com afeição
Ser alegre e tagarela
Poder também dizer não!
Carrinho, jogos, bonecas,
Montar um jogo de armar,
Amarelinha, petecas,
E uma corda de pular.
Um passeio de canoa,
Pão lambuzado de mel,
Ficar um pouquinho à toa…
Contar estrelas no céu…






Ficar lendo revistinha,
Um amigo inteligente,
Pipa na ponta da linha,
Um bom dum cachorro quente.
Festejar o aniversário,
Com bala, bolo e balão!
Brincar com muitos amigos,
Dar uns pulos no colchão.
Livros com muita figura,
Fazer viagem de trem,
Um pouquinho de aventura…
Alguém para querer bem…
Festinha de São João,
Com fogueira e com bombinha,
Pé de moleque e rojão,
Com quadrilha e bandeirinha.
Andar debaixo de chuva,
Ouvir música e dançar.
Ver carreiro de saúva,
Sentir o cheiro do mar.
Pisar descalça no barro,
Comer frutas no pomar,
Ver casa de joão-de-barro,
Noite de muito luar.
Ter tempo pra fazer nada,
Ter quem penteie os cabelos,
Ficar um tempo calada…
Falar pelos cotovelos.
E quando a noite chegar,
Um bom banho, bem quentinho,
Sensação de bem estar…
De preferência com colinho.
Uma caminha macia,
Uma canção de ninar,
Uma história bem bonita,
Então, dormir e sonhar…
Embora eu não seja rei,
Decreto, neste país,
Que toda, toda criança
Tem direito a ser feliz!

AbrAção,
Rosana Rodrigues 

 Encontrado em:
 http://www.campolargo.pr.gov.br/uploads/O%20direito%20da%20crian%C3%A7a%20Ruth%20Rocha.pdf

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Segredo - Henriqueta Lisboa

Andorinha no fio
escutou um segredo.
Foi à torre da igreja,
cochichou com o sino.
E o sino bem alto:
delém-dem
delém-dem
delém-dem
dem-dem!
Toda a cidade
ficou sabendo.

sábado, 27 de abril de 2013

Adversidades - Lualves

(Do extinto "Casa da Infância/Spaceblog")

Ainda que a chuva demore
que à noite a vela venha curta
ou a palavra esguia teime em fugir do verso

Ainda que o beijo no rosto seja o de Judas
que o conto não tenha a frase perfeita
ou o descuido tenha desafinado o final

Ainda que demore
que respingue
que desatine
que o que era Sol
há pouco tenha se apagado
e o que era doce
de amargo se vestiu

Ainda que não
Ainda que nada
Ainda que sujo

Ainda que o corpo sangre
E o espasmo seja o espanto
E o canto desabafo

(bem me lembro das noites frias regadas a conhaque)

Ainda que a memória esteja falha
Que o passado condene
E o julgamento injusto
E que a sentença seja

a solidão...

Ainda que não
Ainda que nada
Ainda que impuro

Eu juro

Ainda que venha a morte

E tudo se transforme em silêncio...

em silêncio...

silêncio.

Haverá de manter-se esse desejo incessante
Um sonho ( que sem ele o homem é carvão)

Um último gole de poesia
E esperança

Cujo gosto (que é voz e ecoa)

Permanecerá vivo de alguma forma
Além da vida
Além da morte
Além de mim
 

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A Foca

(Do extinto "Casa da Infância/Spaceblog")


Blog de casadainfancia :Casa da Infância, A Foca
Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola
No seu nariz.

Quer ver a foca
Bater palminha?
É dar a ela
Uma sardinha.

Quer ver a foca
Fazer uma briga?
É espetar ela
Bem na barriga!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Menino Azul

(Do extinto "Casa da Infância/Spaceblog")


Blog de casadainfancia :Casa da Infância, O Menino Azul
O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.
O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.
O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.
E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.
(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)
Cecília Meireles

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Um Garotinho

(Do extinto "Casa da Infância/Spaceblog")




Um garotinho
Olhava para uma estrela
E começou a chorar
E
A estrela perguntou
Garoto
Por que esta chorando?
E
O garoto respondeu
Você esta tão longe
Que nunca conseguirei tocá-la
E
 Estrela disse
Garoto
Se eu já não estivesse
Em seu coração
Você ano conseguiria
Me ver   
~John Magliota