segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A leitura intermediando a relação professor aluno no infinito espaço da aula


Jorge Larrosa pinta-nos, brilhantemente, um quadro sobre o que é uma lição, colorido com os sentidos e significados da leitura.  Em seu discurso, o autor conduz o leitor a um mundo, talvez, inexplorado ou impensado sobre as possibilidades que a lição, por intermédio da leitura, oferece: dis-posição, emplazamento, in-de-terminação, en-fiar-se, amizade e liberdade. Termos que representam a especificidade e generalização da leitura na sua relação não com o bom leitor, mas o leitor de verdade. Aquele que mergulha nas linhas e entrelinhas disponibilizadas pelo escritor e que interage, digere e ousa, expandindo-se a um infinito de ideias e reflexões que modificam a sua própria estrutura de ser e de fazer.
Certamente, passado pelos olhos de um educador intrigado com as melhores maneiras de captar para si a atenção de sua plateia, a reflexão ultrapassa o objeto da lição – leitura – e contextualiza o espaço denominado aula. A aula reflete o posicionamento docente frente ao seu padrão de ensinante e de aprendente. Ao mesmo tempo em que entrega-se a atividade da leitura para destrinchar para si mesmo os segredos re-velados da leitura, guarda para si a preocupação em traduzir significativamente este teor para seus discípulos. Discípulos no sentido da avidez pelo domínio e autonomia da ferramenta leitura.
O educador, na maioria das vezes, conscientemente ou não, reconhece a sua tríplice tarefa de leitura: escutar o texto, escutar a si mesmo enquanto lê e escutar o silêncio daqueles que se encontram lendo. É ciente de sua tarefa, mas angustia-se na mesma proporção que sua prática é permeada pelas políticas educacionais. Às vezes, elas castram violentamente as iniciativas, sonhos e perspectivas docentes.
A este profissional dispõem-se, através do texto, elementos promotores de conhecimento e de inquietação. Sentimentos que produzem palavras ora suaves, ora enérgicas na sua trilha de formação pessoal e profissional, que são necessárias à conquista de sua liberdade envolta por laços de amizade. 
No breve espaço da aula, a relação professor-aluno, o bem maior a ser construído, independentemente dos percalços possíveis no processo de ensino-aprendizagem, traduz-se pelo o acesso, construção e autonomia dos educandos. Pela identidade com o docente, o aprendiz determina seus passos no caminho da construção da própria liberdade e amizade.

Rosana Rodrigues Gomes da Silva

 
Referência
LARROSA, Jorge. Sobre a lição. In: _______.  Pedagogia Profana: danças, piruetas e mascaradas. Trad. Alfredo Veiga-Neto. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. p. 139-146.

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