Jorge Larrosa
pinta-nos, brilhantemente, um quadro sobre o que é uma lição, colorido com os
sentidos e significados da leitura. Em
seu discurso, o autor conduz o leitor a um mundo, talvez, inexplorado ou
impensado sobre as possibilidades que a lição, por intermédio da leitura,
oferece: dis-posição, emplazamento,
in-de-terminação, en-fiar-se, amizade e liberdade. Termos que representam a especificidade
e generalização da leitura na sua relação não com o bom leitor, mas o leitor de
verdade. Aquele que mergulha nas linhas e entrelinhas disponibilizadas pelo
escritor e que interage, digere e ousa, expandindo-se a um infinito de ideias e
reflexões que modificam a sua própria estrutura de ser e de fazer.
Certamente, passado
pelos olhos de um educador intrigado com as melhores maneiras de captar para si
a atenção de sua plateia, a reflexão ultrapassa o objeto da lição – leitura – e
contextualiza o espaço denominado aula. A aula reflete o posicionamento docente
frente ao seu padrão de ensinante e de aprendente. Ao mesmo tempo em que
entrega-se a atividade da leitura para destrinchar para si mesmo os segredos
re-velados da leitura, guarda para si a preocupação em traduzir
significativamente este teor para seus discípulos. Discípulos no sentido da
avidez pelo domínio e autonomia da ferramenta leitura.
O educador, na maioria
das vezes, conscientemente ou não, reconhece a sua tríplice tarefa de leitura:
escutar o texto, escutar a si mesmo enquanto lê e escutar o silêncio daqueles
que se encontram lendo. É ciente de sua tarefa, mas angustia-se na mesma
proporção que sua prática é permeada pelas políticas educacionais. Às vezes,
elas castram violentamente as iniciativas, sonhos e perspectivas docentes.
A este profissional dispõem-se,
através do texto, elementos promotores de conhecimento e de inquietação.
Sentimentos que produzem palavras ora suaves, ora enérgicas na sua trilha de
formação pessoal e profissional, que são necessárias à conquista de sua
liberdade envolta por laços de amizade.
No breve espaço da
aula, a relação professor-aluno, o bem maior a ser construído,
independentemente dos percalços possíveis no processo de ensino-aprendizagem, traduz-se
pelo o acesso, construção e autonomia dos educandos. Pela identidade com o
docente, o aprendiz determina seus passos no caminho da construção da própria
liberdade e amizade.
Rosana Rodrigues Gomes da Silva
Referência
LARROSA, Jorge. Sobre a lição. In: _______.
Pedagogia Profana: danças,
piruetas e mascaradas. Trad. Alfredo Veiga-Neto. Belo Horizonte: Autêntica,
2004. p. 139-146.
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